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ACEITO

A comparação de previsões macroeconómicas entre as várias instituições oficiais deve ser realizada com prudência. Frequentemente as projeções relativas às mesmas variáveis e ao mesmo período de análise apresentam discrepâncias numéricas. Existem diferentes fatores a ter em conta quando se analisam os resultados: as categorias de modelos utilizados, o momento da publicação, a forma e o tipo de políticas consideradas e a incorporação de elementos de incerteza.

 

Um dos fatores importantes para explicar a heterogeneidade de resultados é a existência de diferentes metodologias envolvidas nas previsões. Estas são fundamentadas em modelos económicos que geralmente assentam em diferentes pressupostos. Entre a grande variedade de modelos, uns têm uma base mais teórica e são mais ricos na micro-fundamentação económica. Outros assumem características híbridas, usando por um lado fundamentação teórica para a caracterização das escolhas dos agentes e, por outro, propriedades mais empíricas, através da definição de equações comportamentais estimadas econometricamente (por exemplo, o modelo Area-Wide do BCE, o NiGEM da OCDE ou o modelo usado pelo CFP). Frequentemente são usadas várias metodologias/modelos no mesmo exercício de modo a conferir robustez aos resultados.

 

O momento de publicação dos exercícios é também um fator a ter em conta. A informação mais atualizada não é uniforme ao longo do tempo: os dados trimestrais são apenas divulgados pelas autoridades estatísticas durante o período seguinte. Isto implica que diferentes instituições podem basear-se em informação distinta. Mesmo entre exercícios da mesma instituição os dados de base podem ser diferentes, pelo que a sua comparação deve ser realizada com precaução. Na figura abaixo é ilustrado o calendário habitual das previsões para a economia portuguesa das principais instituições internacionais (Comissão Europeia, FMI e OCDE) e nacionais (MF, Banco de Portugal e CFP) e da divulgação das Contas Nacionais. 

 

 

Calendário habitual das previsões para Portugal e da divulgação das Contas Nacionais 

Calendário habitual das previsões para Portugal

Notas: o calendário considera o mês habitual de cada exercício; a posição em cada mês é ilustrativa, não sendo os dias pré-definidos; as instituições internacionais geralmente publicam outras previsões em documentos sobre Portugal mas sem periodicidade regular.

 

Outro aspeto está relacionado com os cenários de políticas invariantes (no policy change ou baseline scenario) adotados por cada instituição. Estes assumem que as medidas de política económica em vigor irão permanecer inalteradas ao longo do horizonte temporal. Os cenários de políticas invariantes não se destinam a obter a melhor previsão, mas sim a servir como termo de comparação em relação ao qual se podem medir os efeitos da introdução de novas medidas. Para o curto prazo, a maioria das instituições considera medidas já legisladas ou anunciadas oficialmente. Salvo indicação em contrário, assume-se que estas se mantêm inalteradas ao longo do tempo. No entanto, para o médio prazo, são avaliadas as medidas que poderão vir a ser implementadas mas cujo grau de certeza é variável. Nesses casos, a regra geral é a de excluir aquelas em que não há informação suficiente sobre o que significam ou sobre a intenção das autoridades em as implementarem. Esta avaliação cabe a cada instituição, podendo levar a entendimentos distintos.

 

Acresce que a falta de precisão da definição de “informação suficiente” torna-se também um fator diferenciador dos cenários de políticas invariantes. Algumas instituições, como o Banco de Portugal, o FMI e o CFP (Subsecção 3.1.1), detalham quais as medidas orçamentais consideradas. O FMI assume ainda que quando não há informação, o saldo primário estrutural se mantém inalterado (exceto se indicado o contrário). Outras instituições como a Comissão Europeia, o BCE, e a OCDE não especificam com detalhe quais as medidas incluídas. Estes diferentes critérios dificultam as comparações entre projeções.

 

Por fim, é importante ter em conta a opinião das diferentes instituições sobre os fatores qualitativos que envolvem as previsões. Todos os exercícios implicam incerteza de difícil quantificação, mas que tem de ser considerada. Por exemplo, é o caso da reação dos agentes económicos a estímulos orçamentais ou a evolução da procura externa. A ponderação sobre estes fatores é influenciada por diferentes visões das instituições ou pelo acesso a informação que estas possam ter sobre variáveis não publicadas. Em última análise, em cenários de maior incerteza, a decisão sobre determinadas hipóteses dos exercícios de projeção é condicionada pelo contexto e critérios de cada instituição.

 

Apesar destas limitações, a comparação entre diferentes previsões não fica invalidada. No entanto, a influência destes fatores aconselha a que a sua interpretação seja realizada com prudência, mesmo quando confrontando previsões da mesma instituição. As hipóteses subjacentes a cada exercício devem ser analisadas e comunicadas quando são realizados exercícios de comparação.

 

“Caixa 3 – Comparabilidade entre as previsões macroeconómicas de diferentes instituições”, originalmente publicada no Relatório 3/2016, “Finanças Públicas: Situação e Condicionantes 2016-2020”, de março de 2016.