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ACEITO

Quaisquer exercícios de projeção ou previsão macroeconómica – incluindo os desenvolvidos pelo CFP – assentam em hipóteses para a procura externa dirigida à economia que visam ancorar as expectativas para a evolução das exportações. A análise é geralmente feita com base em equações e relações económicas que empregam variáveis agregadas, através das quais se torna difícil investigar em detalhe, por exemplo, as dinâmicas que influenciam as relações comerciais de um determinado país com os seus principais parceiros comerciais. Análises a um nível mais desagregado podem revelar informação útil e contribuir, assim, para complementar o entendimento das dinâmicas comerciais em que uma determinada economia se insere – o que assume, naturalmente, uma importância particular para pequenas economias abertas, como é o caso de Portugal.  

 

Neste contexto, procede-se aqui a uma breve análise econométrica que pretende avaliar a sensibilidade das exportações portuguesas para Espanha a variações das componentes da procura interna e das exportações deste país. Os dados utilizados são trimestrais e cobrem o período entre 2000 e 2016; neste último ano a Espanha representou 21% do total de exportações portuguesas de bens e serviços, constituindo-se, mais uma vez, como o principal destino das mesmas. A análise assenta em modelos VAR com seis variáveis (salvo indicação em contrário as variáveis referem-se à economia espanhola): exportações totais, consumo público, consumo privado, formação bruta de capital fixo (FBCF), exportações portuguesas (de bens ou de serviços para Espanha) e, finalmente, o rácio entre os deflatores das exportações portuguesas de bens ou de serviços e o deflator do PIB de Espanha. 

 

O Painel 1 apresenta os resultados da resposta das exportações portuguesas de bens para Espanha face a choques nas componentes da procura interna e nas exportações totais desse país. Um choque de um desvio-padrão no crescimento da FBCF em Espanha reflete-se positiva e rapidamente no crescimento das nossas exportações para o país vizinho, ocorrendo o mesmo com uma aceleração no crescimento nas exportações espanholas (em ambos os casos o efeito desvanece-se após um trimestre). Tal sugere a existência de uma certa integração das exportações portuguesas nos processos produtivos da economia espanhola e nas cadeias de valor internacionais em que esta participa. Note-se que, nos trimestres que formam o período em consideração, a percentagem das exportações de máquinas e outros bens de capital, material de transporte e fornecimentos industriais foi, em termos médios, de 64% da totalidade das exportações de bens para Espanha. A uma variação positiva do crescimento do consumo privado em Espanha também está associada uma aceleração das nossas exportações para esta economia, ocorrendo aquela com um desfasamento de um trimestre. É de realçar, no entanto, que variações no consumo público em Espanha não parecem ter qualquer efeito no crescimento das exportações de Portugal para Espanha.

 

 

Painel 1 – Resposta das Exportações de Bens de Portugal para Espanha (p.p.) 

Resposta das Exportações de Bens de Portugal para Espanha

Nota: estimações do CFP com base em dados trimestrais do Banco de Portugal e do Eurostat; intervalos de confiança de 95%. As exportações portuguesas para Espanha foram deflacionadas recorrendo-se aos deflatores das exportações portuguesas de bens; os efeitos sazonais foram removidos através do procedimento X-12. Todas as variáveis do sistema foram convertidas em taxas de variação em cadeia.

 

O Painel 2 repete o exercício para as exportações de serviços de Portugal para Espanha. Uma vez mais, o aumento do crescimento do consumo público aparenta não exercer qualquer efeito na variável de interesse. O mesmo ocorre com um choque positivo nas exportações de Espanha, embora aqui se estime um efeito positivo após um trimestre que, no entanto, não chega a ser significativo do ponto de vista estatístico. Já um choque positivo na FBCF da economia espanhola parece gerar uma resposta positiva nas exportações de serviços para este país, a qual permanece estatisticamente significativa após quatro trimestres. A resposta a um choque-impulso no consumo privado é igualmente positiva, surgindo após dois trimestres e mantendo-se assim após quatro trimestres – a tal não será estranho o facto de a rubrica “Viagens e turismo” representar em termos médios 48% das exportações de serviços para Espanha no período em análise.

 

 

Painel 2 – Resposta das Exportações de Serviços de Portugal para Espanha (p.p.)

Resposta das Exportações de Serviços de Portugal para Espanha

Nota: estimações do CFP com base em dados trimestrais do Banco de Portugal e do Eurostat; intervalos de confiança de 95%. As exportações portuguesas para Espanha foram deflacionadas recorrendo-se aos deflatores das exportações portuguesas de serviços; os efeitos sazonais foram removidos através do procedimento X-12. Todas as variáveis do sistema foram convertidas em taxas variação em cadeia.

 

Este tipo de análise oferece elementos úteis para analisar as dinâmicas subjacentes à relação entre exportações e procura externa e, deste modo melhor informar o julgamento qualitativo de que os resultados produzidos por modelos de previsão devem ser alvo. O curto estudo que aqui se apresenta é de natureza essencialmente exploratória e, como tal, abre perspetivas para desenvolvimentos futuros. Seria relevante conhecer, por exemplo, que tipo de padrões se observam nas exportações portuguesas para outros países, nomeadamente França, Alemanha, Reino Unido, EUA ou Angola. É também possível estudar que categorias específicas de bens e serviços respondem a que impulsos nestes países – é de supor, por exemplo, que choques na procura interna do Reino Unido se reflitam de forma particularmente clara nas exportações de serviços relacionados com o turismo para esse país. Um desenvolvimento mais ambicioso passaria por testar a hipótese de que análises deste género produzem informação que, quando integrada nas equações de exportação dos modelos de previsão, pode constituir um refinamento das mesmas, tornando-as de estimação mais precisa.

 

“Caixa 1 – Dinâmica comercial e procura externa: o caso das exportações portuguesas para Espanha”, originalmente publicada no Relatório 2/2016, “Finanças Públicas: Situação e Condicionantes 2017-2021 (Atualização)”, de setembro de 2017.