Autonomia energética: um escudo contra choques globais
A dependência energética da economia portuguesa tem vindo a reduzir-se, mas permanece uma vulnerabilidade macroeconómica relevante. Esta fragilidade materializa-se em múltiplas dimensões: no risco para a estabilidade do fornecimento, no contributo para o saldo da balança comercial e nas necessidades de financiamento externo. Acresce a exposição à flutuação dos preços de referência, com reflexo nos termos de troca e no rendimento real da economia. Não sendo Portugal um produtor primário de petróleo ou gás natural, o seu elevado grau de dependência energética torna-o vulnerável a tais flutuações. A energia é um input crítico para os custos de produção e de transporte, com reflexo direto na inflação e no PIB: um aumento dos custos energéticos reduz o rendimento disponível real das famílias e eleva os custos de exploração das empresas, penalizando o consumo e o investimento. Além do impacto direto, o aumento dos custos energéticos comprime as margens das empresas e encarece os transportes, com efeitos indiretos que se propagam à inflação.
A crise energética de 2022 evidenciou a vulnerabilidade a disrupções na oferta de matérias-primas. A invasão da Ucrânia pela Federação Russa teve como consequência um forte impacto no preço do gás natural (aumento de 320% entre janeiro e agosto de 2022). Outras matérias-primas industriais (e.g. fertilizantes) e bens alimentares, cuja produção depende deste recurso, sofreram importantes efeitos de contágio. Este episódio reforçou a discussão em torno da resiliência económica, da diversificação de fontes de energia e de fornecedores e da própria competitividade industrial europeia.
| Gráfico 1: Grau de dependência energética, % | Gráfico 2: Percentil de Portugal na distribuição da dependência entre os Estados-Membros da UE |

Fonte: Eurostat, cálculos CFP. Nota: O rácio ou grau de dependência energética mede a proporção de energia total disponível para consumo num território, designada por Energia Bruta Disponível (EBD), satisfeita por importações. Os valores para a UE não são consolidados (incluem importações entre Estados-Membros, não sendo por isso diretamente comparáveis com o de um país individual).
A dependência energética da economia portuguesa registou uma redução sustentada desde 2005, em contraste com a UE. Em Portugal, a dependência diminuiu de uma média de 83,7% na década de noventa (52,3% na UE), para 64,5% em 2024 (57,2% na UE). Apesar de superior à média europeia, o grau de dependência tem convergido com a mediana dos Estados-Membros da UE (Gráficos 1 e 2). Na década de noventa, Portugal apresentava o 4.º maior rácio de dependência e, em 2024, apresentava o 12.º mais elevado, numa posição mais favorável do que a Espanha (68,9%) e a Alemanha (66,8%).
O grau de dependência energética tem implicações para as finanças públicas, aumentando a pressão para a política orçamental intervir na estabilização dos preços. As consequências concentram-se sobretudo no impacto orçamental de subsídios e de controlo administrativo dos preços: medidas que tendem a desincentivar a poupança energética e, quando não são direcionadas, a gerar efeitos redistributivos regressivos, beneficiando de forma desproporcional grupos com rendimento mais elevado. Em 2022, foram implementadas reduções na taxa do ISP e a suspensão da atualização da taxa de carbono (o Relatório do CFP expõe de forma detalhada estes apoios). Nesse contexto, os apoios extraordinários pagos às famílias com menor rendimento configuram um exemplo de segmentação. Entre 2022 e 2023, o impacto orçamental das medidas de resposta ao choque energético ascendeu a 6.800 M€ (2,6% do PIB), dos quais 40% corresponderam a alterações fiscais sobre os combustíveis. Este impacto não inclui o funcionamento, de forma indireta, dos estabilizadores automáticos.
As importações energéticas portuguesas concentram-se num número restrito de fornecedores. Entre 2015-2019, antes da crise de 2022, a composição das importações de petróleo e produtos petrolíferos estava concentrada nos seguintes fornecedores: Rússia (15%), Angola (13%), Espanha (11%), Azerbaijão (9%) e Arábia Saudita (9%). Em 2024 e 2025, mais de metade destas importações tiveram origem em três países: Brasil (26%), Espanha (17%) e Argélia (12%). No caso do gás natural, atualmente, a concentração da exposição é mais acentuada: Nigéria (42%) e EUA (38%), sendo que, em 2017, os principais fornecedores foram Espanha (50%) e Catar (11%).
| Gráfico 3: Energia bruta disponível, 1990 = 100 | Gráfico 4: Evolução sectorial do consumo de energia e intensidade energética, 1995-2024 |

| Fonte: Eurostat, cálculos CFP. | Fonte: DGEG, cálculos CFP. |
A redução do grau de dependência ocorreu a par de uma queda do consumo de energia desde meados da década de 2000. Em Portugal, a EBD atingiu um máximo em 2005, com um incremento de 60% face a 1990, mas recuando para 25% em 2024 (Gráfico 3). Na UE, a EBD atingiu o pico em 2006 (aumento de 12% face a 1990) e tem decrescido desde então. A par da redução verifica-se uma recomposição sectorial no uso de energia. Com base nos dados da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG), entre 1995 e 2024 verificaram-se reduções na agricultura (-12%) e na indústria (-10%), e aumentos nas famílias (15%), nos transportes (32%) e nos serviços (113%) (Gráfico 4).
A intensidade energética da economia portuguesa apresenta também uma tendência de redução. Esta mede as unidades de energia consumidas pela produção de um milhão de euros de PIB, sendo frequentemente utilizada como uma aproximação da eficiência energética de uma economia. Em 2024, para cada unidade de produto, foi necessário um consumo de energia inferior em 12,9% em Portugal face à UE (Gráfico 5). Com base numa abordagem do FMI (2019), é possível decompor o consumo de energia pelas suas principais componentes (Gráfico 6).

A formulação permite verificar que, apesar do aumento expressivo do PIB per capita no período (42%), e do aumento da população (7%), a redução da intensidade energética (-31%) permitiu inverter a trajetória da EBD. A nível sectorial, a redução da intensidade energética foi mais expressiva na indústria (-29%) e nas famílias (-23%), de menor dimensão para a agricultura e pescas (-9%) e transportes (-15%), sendo apenas o sector dos serviços a registar tanto um aumento do consumo como da intensidade (33%). O aumento da intensidade energética no sector dos serviços pode ser influenciado pelo crescimento do turismo, climatização (ar-condicionado) e, no futuro, pelo funcionamento de centros de dados.
| Gráfico 5: Intensidade energética em 2024, média UE = 100 (Terajoules por M€) |
Gráfico 6: Contributos para a variação da EBD, p.p. |

| Fonte: DGEG, cálculos CFP. | Fonte: Eurostat, cálculos CFP. |
A redução da intensidade energética da atividade económica ajuda a mitigar o impacto económico de choques no preço das matérias-primas. De acordo com as estatísticas do comércio internacional, o défice da balança energética em 2024 ascendeu a 2,1% do PIB, face a uma média de 3% do PIB desde 2000. Caso o rácio de dependência se tivesse mantido ao nível de 2005, o saldo da balança teria sido agravado em cerca de 40% (equivalente a 1% do PIB, em 2024).
Nos últimos 25 anos, um aumento de 10€ no preço do barril de Brent esteve associado a uma deterioração do saldo da balança energética em torno de 0,6% do PIB. O exemplo mais expressivo foi o observado em 2022, no contexto da crise energética, quando um aumento de 34€ no preço do barril de Brent provocou uma deterioração da balança equivalente a 2,1% do PIB (5800 M€), gerando uma transferência de rendimentos significativa para o exterior (Gráfico 7). A maior dispersão observada nos períodos de queda de preço é consistente com a coincidência entre essas descidas e períodos de contração da atividade económica, em que a redução simultânea da procura de energia atenua de forma irregular o efeito de preço sobre a balança. Importa notar que neste exercício não é considerado o impacto que outras matérias-primas, como por exemplo o gás natural, terão tido no saldo da balança energética.
| Gráfico 7: Correlação entre a variação anual da balança energética e do preço do Brent |
Gráfico 8: Peso na EBD de cada uma das suas componentes constituintes |

| Fonte: Cálculos CFP. | Fonte: Eurostat, cálculos CFP. |
A produção primária de energia em Portugal mais do que duplicou desde 2005, representando hoje mais de 35% da EBD. A redução da dependência energética foi possibilitada pela contribuição simultânea da redução do consumo, da diminuição da intensidade energética e dos ganhos de produção interna de energia. O aumento da produção doméstica deve-se essencialmente ao incremento (122%) de origem renovável (Gráfico 8). Este é um fator diferenciador: na UE, a dependência aumentou a par de uma redução absoluta da produção doméstica. Perante a persistência de um nível elevado de dependência e a ausência de recursos fósseis domésticos, será necessária uma maior penetração de produção renovável e eletrificação do consumo, para mitigar os riscos que a volatilidade dos preços coloca sobre a economia e as finanças públicas. A este respeito, o Plano Nacional Energia e Clima 2030 é o principal instrumento de política energética e climática: na sua atualização de novembro de 2024, a meta de dependência energética para 2030 era 65% — valor que terá sido atingido em 2024.
Apesar dos progressos, cerca de dois terços da energia disponível em Portugal dependem ainda de importações, concentradas num número restrito de fornecedores. A experiência da crise de 2022, com medidas de política com um impacto orçamental de 6800 M€, demonstrou o custo desta vulnerabilidade. Os resultados aqui apresentados reforçam a importância de uma estratégia que articule investimento em renováveis com a promoção da eficiência energética sectorial, em particular nos serviços.
O bloqueio do Estreito de Ormuz veio materializar o risco de um novo choque energético. O preço do Brent passou de cerca de 60 €/barril no início de 2026 para valores acima de 90 €/barril em março, na sequência do conflito no Médio Oriente. Com base na elasticidade estimada, um aumento desta magnitude (na ordem dos 30 €/ barril) poderá traduzir-se numa deterioração do saldo da balança energética em torno de 1,8% do PIB, comparável ao impacto observado em 2022. Os ganhos de autonomia energética alcançados nas últimas duas décadas constituem um amortecedor relevante, mas insuficiente face à magnitude deste tipo de choques.
Nota: A análise adapta ao contexto nacional a abordagem proposta por Sterling et al. (2025).
Referências
Kilian, L. (2008). The Economic Effects of Energy Price Shocks. Journal of Economic Literature, 46(4), 871-909
Anaya Longaric, P., De Sanctis, A., Grynberg, C., Kostakis, V., & Vinci, F. (2024). Energy shocks, corporate investment and potential implications for future EU competitiveness. ECB Economic Bulletin, Issue 8/2024.
Conselho das Finanças Públicas. (2024). Evolução Orçamental das Administrações Públicas em 2023 (Relatório N.º 05/2024).
International Monetary Fund (2019). “What’s happening with global carbon emissions?”. World Economic Outlook, Box 1, October.
Agência Portuguesa do Ambiente. (2024, outubro). Plano Nacional Energia e Clima 2030 (PNEC 2030). Atualização/revisão.
Data da última atualização: 08/04/2026