Impactos plausíveis do estado de calamidade
Esta nota tem por objetivo enquadrar e organizar a informação disponível relativa aos fenómenos meteorológicos extremos que têm assolado várias regiões do país nas últimas semanas.
Para esse efeito, procede-se a uma breve caracterização dos territórios afetados e a uma avaliação preliminar dos principais canais suscetíveis de determinar o impacto económico da calamidade. Este exercício visa sistematizar a vasta informação que tem sido divulgada, procurando contribuir para a sua compreensão e contextualização. Este é um trabalho em atualização, dada a natureza e a escala dos eventos, não podendo ser por isso considerado exaustivo ou completo. Recorre a informação publicada e divulgada por fontes oficiais e órgãos de comunicação social nacionais.
Sequência de tempestades atlânticas. Um denominado “comboio de tempestades” está a ocorrer desde 22 de janeiro de 2026, provocado por severas depressões meteorológicas consecutivas. A sequência incluiu as tempestades:
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Ingrid (21-22 de janeiro)
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Joseph (25-26 de janeiro)
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Kristin (27-28 de janeiro)
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Leonardo (3 de fevereiro)
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Marta (7 de fevereiro)
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Nils (10 de fevereiro)
Caracterização sumária dos territórios afetados
Municípios
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68 municípios em situação de calamidade (decretado inicialmente a 29 de janeiro, atualmente prolongado até dia 15 de fevereiro), representando 24% do total de municípios do território continental.
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A zona afetada abrange, ao nível de NUTS III, Região de Leiria, Beira Baixa e Médio Tejo por completo e, maioritariamente, Região de Aveiro (9/11 concelhos), Região de Coimbra (15/19) e Oeste (9/12) e, residualmente, Lezíria do Tejo (3/11), Beiras e Serra da Estrela (2/15) e Alentejo Litoral (1/5).


Produto Interno Bruto (PIB), NUTS III, preços correntes (2024)
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Região de Leiria = 2,6% do PIB
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Região de Leiria, Beira Baixa e Médio Tejo = 7,0% do PIB
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Região de Aveiro, Região de Coimbra e Oeste = 9,9% do PIB
População (2023)
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Nos municípios afetados residem 1,8 milhões de pessoas (17,2% da população residente em Portugal).
Exportações (2024)
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Dos 50 municípios com maior volume de exportações de bens a nível nacional, 13 estão em situação de calamidade.
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As exportações diretas de bens com origem nestes municípios representam 15,5% do total nacional.
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Principais: Ovar (1,4%), Aveiro (1,3%), Leiria (1,1%), Marinha Grande (1,1%) e Estarreja (1,0%).
Emprego, NUTS III, Contas Nacionais (2024)
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Região de Leiria = 2,8% do emprego (146 mil trabalhadores)
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Região de Leiria, Beira Baixa e Médio Tejo = 5,2% do emprego (273 mil trabalhadores)
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Região de Aveiro, Região de Coimbra e Oeste = 10,3% do emprego (544 mil trabalhadores)
Valor Acrescentado Bruto (VAB), NUTS III, preços correntes (2023)
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Não obstante as regiões afetadas representarem aproximadamente 14,9% do VAB nacional, estas representam 23,5% do VAB da Indústria e 23,1% do VAB da Agricultura.
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Por exemplo, a Região de Aveiro representa 8,0% do VAB da Indústria, enquanto o Oeste representa 8,4% do VAB da Agricultura.

Fonte: INE. Nota: O VAB das Administrações Públicas (AP) corresponde à nomenclatura A10 “Administração pública e defesa; segurança social obrigatória; educação, saúde humana e ação social”. Para a estimativa relativa aos concelhos em calamidade, são consideradas as NUTS III nas quais os concelhos em situação de calamidade abrangem total ou maioritariamente o território.
O que determinará o impacto económico
O impacto no PIB é complexo. Há que distinguir o impacto no fluxo de atividade (produção, consumo) e no stock de riqueza (financeira e não financeira, por exemplo habitação), incluindo no capital produtivo. Contudo, há que ter em conta a interdependência entre ambos. Acresce que o impacto será diferenciado no território declarado em situação de calamidade, dada a natureza diferenciada dos fenómenos em causa, a sua intensidade e concentração espacial.
Principais impactos imediatos:
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danos em infraestruturas públicas e perdas geradas por falha de fornecimento elétrico, de gás ou água, acessos limitados e comunicações instáveis;
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perda de riqueza sofrida pelas empresas (e.g. equipamentos, fábricas, stock, automóveis comerciais e pesados, terrenos e outros ativos biológicos) e famílias (e.g. habitação, veículos);
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quebra da atividade económica (e.g. produção, consumo) devido a inúmeros fatores, dos quais se destacam as dificuldades de mobilidade de pessoas, deslocamento e circulação de bens, e serviços como turismo e hospitalidade;
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encomendas internacionais relevantes em risco, com repercussões negativas, incluindo reputacionais, no desempenho exportador nacional;
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efeitos de segunda-ordem em regiões não afetadas, tanto a montante como a jusante, devido à interligação da produção nos municípios afetados com o restante tecido produtivo nacional (e.g. fornecimentos que não são feitos a afetarem a produção de clientes situados noutras regiões; compras que não são feitas a prejudicarem a atividade dos seus fornecedores de outras regiões);
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a ativação de medidas de apoio às famílias e empresas afetadas, que incluem ajudas públicas diretas, compensações das seguradoras e moratórias de crédito;
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impacto na atividade turística no período do Carnaval: entre janeiro e março de 2025, as dormidas na hotelaria nestes municípios concentraram 16,6% do registado no ano nesses territórios ou 1,5% do total do ano em Portugal. As catástrofes podem ter um efeito dissuasor na procura turística através do aumento da perceção de risco. A indústria do turismo sofre com a suspensão das suas operações e o cancelamento de grandes eventos.
Principais impactos no curto a médio-prazo:
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aumento da despesa, pelo Estado, empresas e famílias, para a reconstrução de infraestruturas e substituição de bens danificados, beneficiando atividades como a construção, o comércio ou os transportes;
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os danos nas infraestruturas de transportes podem reforçar a exclusão social e agravar as desigualdades já existentes, ao isolar as comunidades;
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insolvência de empresas que vem a sua atividade inviabilizada, por impossibilidade de retoma da produção e/ou recuperação dos seus equipamentos e encomendas;
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deslocalização de unidades de produção situadas nas áreas afetadas e inviabilização de projetos de investimento devido ao risco de repetição de fenómenos meteorológicos semelhantes, principalmente se não existir investimento em infraestruturas que torne os territórios mais resilientes;
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quebra irrecuperável da produção no sector agrícola no curto-prazo, com impacto no preço dos alimentos nos períodos subsequentes;
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pela sua escala, os recursos - físicos e monetários - dedicados à recuperação tenderão a ser substitutivos e não adicionais a outros projetos de investimento já em curso;
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a este impacto de natureza territorial e económica mais geral, acresce o impacto na saúde física e mental das famílias, incluindo na prevalência de trauma, bem como na sua segurança económica. As catástrofes afetam o capital humano a longo prazo através do seu impacto na saúde, no emprego e nas decisões de migração. Note-se que a coesão comunitária atua frequentemente como um mecanismo de resiliência, sendo que níveis elevados de capital social e confiança mútua potenciam a recuperação.
A experiência das cheias de Valência (29 de outubro de 2024)
Uma análise do Caixabank oferece um retrato da destruição vivida em Valência nas cheias de 2024[1]. Identifica uma recuperação desigual consoante o município, a dimensão da empresa e o perfil socioeconómico.
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no caso das empresas na zona mais afetada, o impacto foi mais severo, com a faturação a cair 83% na semana seguinte ao evento e a permanecer inferior ao registado anteriormente durante mais de seis meses;
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A dimensão das empresas revelou-se determinante: as pequenas empresas sofreram quebras de faturação mais acentuadas e não conseguiram recuperar totalmente, ao contrário das grandes empresas, que demonstraram maior capacidade de recuperação;
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o consumo das famílias na zona mais afetada regressou aos níveis normais um mês após a tragédia;
entre os residentes, os indivíduos com menores rendimentos sofreram o maior impacto: o consumo diminuiu até 82%, em comparação com uma queda de 40% nos grupos de maiores rendimentos; ao mesmo tempo, a recuperação foi mais rápida nos agregados de maior rendimento.
O impacto pode ser duradouro nos territórios afetados: de acordo com o estudo de dois economistas do Banco de España (2025), “The flash floods in Spain, one year on: the economic impact of a natural disaster” conclui-se que se, por um lado, o esforço de reconstrução pode ajudar ao crescimento do PIB e à substituição de ativos danificados por outros mais produtivos, modernos e eficientes, as perdas de stock de capital e de riqueza podem ter um efeito negativo persistente no PIB das regiões afetadas, particularmente se a reconstrução for lenta e incompleta.
O impacto económico ao longo do tempo: PIB, stock de capital e riqueza

Fonte: Banco de España (2025)
O impacto económico a médio-prazo varia consoante o tipo de desastre. Ehlers et al. “Macroeconomic impact of weather disasters: a global and sectoral analysis.” (Bank of International Settlements Working Paper n.º 1292, 2025).
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este estudo publicado pelo BIS identifica perdas persistentes no PIB de 2% no caso das secas, 1% no caso de deslizamentos de terras e 0,4% de incêndios florestais, nos 4 anos subsequentes;
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o impacto positivo no caso das cheias e das tempestades apenas emerge após um ano do evento;
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os efeitos macroeconómicos de um determinado desastre meteorológico dependem da natureza do choque e das circunstâncias do país – em particular, do espaço orçamental existente e da cobertura de seguros das empresas e dos indivíduos afetados;
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os efeitos sectoriais são, também, desiguais. Por exemplo, a agricultura, a silvicultura e a pesca registam um declínio após secas e tempestades, um efeito que persiste durante três e dois anos, respetivamente.
Reação do PIB após catástrofes climáticas, com controlos para a notação de crédito soberano e prémios de seguro de propriedade

Fonte: BIS (2025)
A importância dos seguros num contexto de catástrofes naturais
Em Portugal, a cobertura de seguros contra riscos climáticos é baixa. De acordo com a OCDE (2026), apenas cerca 3% das perdas incorridas entre 1980 e 2024 estavam cobertas por seguros. Assim, tem sido o Estado Português assim como a União Europeia (e.g. Fundo de Solidariedade Europeu) a providenciar compensações às vítimas de desastres. A baixa cobertura torna os seguros privados menos eficazes ao reduzir a partilha dos riscos (“risk pooling”) e aumenta as responsabilidades contingentes para o Estado. Mesmo quando a cobertura do seguro é acessível, as pessoas geralmente subestimam a probabilidade e o impacto das catástrofes, um desafio conhecido para o sector dos seguros. Os efeitos crescentes das alterações climáticas significam que a cobertura tenderá a diminuir, à medida que o aumento dos prémios de seguro reduz a procura e as seguradoras se retiram de áreas particularmente expostas.
Um aumento da cobertura teria benefícios para a economia, estabilidade financeira e a posição financeira do Estado. De acordo com a Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF), aos riscos de incêndio rural confirma que a maioria do capital seguro se encontra em zonas de perigosidade nula ou muito baixa, sobretudo em áreas urbanas e, para o risco de inundação, a maioria do capital seguro situa-se em zonas de risco globalmente moderado. Em 2026, a OCDE recomendou que Portugal estabeleça um mecanismo formal de partilha de riscos público-privado, avançando com a proposta de tornar o seguro de propriedade para catástrofes naturais obrigatório para todos os edifícios, alinhando os prémios com a exposição ao risco. Tal permitiria:
Reduzir o encargo orçamental e promover uma maior resiliência financeira: o seguro obrigatório diminui a dependência da ajuda pública pós-catástrofe, ao garantir uma compensação pré-financiada, reduzindo a pressão orçamental sobre os países que intervêm para suportar os custos da recuperação e reconstrução após uma catástrofe. Diminui também os riscos de instabilidade financeira ao reduzir a exposição dos bancos ao risco físico e ao risco de crédito e ao aumentar o valor do colateral dos mutuários.
Mitigar os custos económicos das catástrofes, ao aumentar a capacidade de recuperação das economias: as catástrofes não só causam perdas económicas diretas, mas também danificam infraestruturas e equipamentos, o que prejudica a atividade económica e as cadeias de abastecimento após o evento. Isto leva a uma menor produtividade e causa perdas indiretas adicionais na produção e no consumo. A existência de um seguro contra catástrofes reduz a incerteza e permite que a economia recupere mais rapidamente e, em certas regiões mais expostas, contribui para a viabilidade de projetos de investimento. Com efeito, os custos globais de uma catástrofe para o bem-estar dependem não só da gravidade dos danos iniciais, mas também da rapidez com que a reconstrução pode ser concluída. Um estudo do BCE validou empiricamente estas conclusões.
Gerar incentivos à prevenção de riscos: os seguros contra catástrofes podem aumentar a resiliência, melhorando a compreensão e a avaliação dos riscos das alterações climáticas e promovendo medidas de redução de riscos e de adaptação. Alguns regimes associam a cobertura a requisitos de mitigação de riscos, procurando resolver o desafio de miopia de risco. A mutualização dos riscos e a sua transferência para empresas privadas de (res)seguros, que podem fornecer incentivos para a resiliência, eficiência e fiabilidade.
Data da última atualização: 12/02/2026