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As preocupações em torno do “mercantilismo industrial” da China têm ganho relevo na esfera política europeia. Este debate intensificou-se à medida que a relação comercial com a UE se torna mais desequilibrada (Gráfico 1) e o risco de desindustrialização mais evidente. Na origem dos excedentes significativos na balança de pagamentos da China reside o atraso na transição de um modelo de crescimento económico baseado no investimento para um ancorado no consumo doméstico.[1 Atualmente, todos os Estados-Membros da UE registam défices comerciais com a China, sendo que a Alemanha assistiu a uma inversão particularmente acentuada na sua balança comercial.[2] 

 

Gráfico 1 – O aumento da dominância da China no comércio internacional

Fontes: Painel da esquerda, Eurostat, cálculos CFP; Painel da direita, WTO Stats, cálculos CFP. Nota: Painel da esquerda, China excluindo Hong Kong; Painel da direita, União Europeia corresponde às exportações extra-UE.

 

O excesso de capacidade industrial instalada na economia chinesa tem sido exacerbado por políticas de subsídios de fomento da produção. Este conjunto de fatores tem exercido pressão descendente sobre os preços dos bens manufaturados nos mercados internacionais, resultando em disrupções em alguns dos principais sectores industriais da UE. A capacidade concorrencial dos produtores europeus é também dificultada pela ausência de uma flutuação livre da taxa de câmbio do yuan, o que tem aumentado a competitividade dos bens chineses.[3]  Uma análise recente da FED encontrou evidências de uma associação sistémica, nos diferentes sectores, entre as intervenções estatais de política industrial e a evolução das exportações da China e a substituição das importações.[4]  Este fenómeno, associado ao aumento do valor acrescentado e da sofisticação da concorrência dos produtores chineses, é particularmente visível no mercado automóvel, tecnologias de energia renovável e na indústria química, do aço e do alumínio. As tarifas impostas em 2025 pelos EUA incentivaram as empresas chinesas a redirecionar as suas exportações.[5]  

 

Este cenário, designado como “o segundo choque da China”, difere do primeiro choque[6]  na medida em que o aumento substancial das exportações se encontra agora concentrado em sectores de mais alta tecnologia. Entre 2000 e 2024, o peso das exportações chinesas de bens industriais não energéticos no total mundial mais do que quadruplicou (Gráfico 1). O impacto do atual choque é cada vez mais visto através da lente da segurança económica e, como tal, a Comissão Europeia tem aumentado a utilização de instrumentos de defesa comercial para proteger as indústrias nacionais do que identifica como concorrência desleal e subsidiada. Exemplos incluem a aplicação de taxas alfandegárias sobre veículos elétricos e investigações sectoriais, nomeadamente sobre subsídios atribuídos a produtores de pneus chineses, e a introdução do Mecanismo de Ajustamento Carbónico Fronteiriço. Estas medidas inserem-se no contexto da Estratégia de Segurança Económica, de junho de 2023, centrada na redução de dependência e exposição a quatro tipos de riscos: resiliência da cadeia de abastecimento, segurança física e cibernética de infraestruturas críticas, segurança tecnológica e a instrumentalização das dependências económicas. 

 

O grau de vulnerabilidade das exportações portuguesas à “Grande Muralha” das exportações chinesas[7]  pode ser aproximado à luz do conceito das vantagens comparativas. As vantagens comparativas referem se à capacidade que um país tem para produzir determinados bens ou serviços a um custo relativamente mais baixo do que outros países, não necessariamente em termos absolutos, mas em termos de custo de oportunidade. Segundo a teoria clássica do comércio internacional, mesmo que um país seja menos eficiente na produção de todos os bens, pode ainda assim beneficiar do comércio internacional ao especializar se naquilo em que é relativamente mais eficiente. 

 

Para esse efeito, utiliza-se o índice de vantagens comparativas reveladas por produto exportado, disponibilizado pela UNCTAD. No seu cálculo, é comparada a proporção de um bem nas exportações de um país com a proporção desse mesmo bem nas exportações mundiais, sendo assim revelada a especialização relativa dessa economia para esse bem. Em termos práticos, podemos afirmar que a economia tem uma vantagem comparativa revelada num sector quando o valor do índice é superior a 1. Embora este indicador possa fornecer uma indicação geral das vantagens comparativas de um país na exportação, a sua fórmula não considera outras medidas que afetam a competitividade (taxas aduaneiras, barreiras não tarifárias ou subsídios).

 

Nos últimos 25 anos, o número de categorias de produtos nas quais as economias europeias e a chinesa partilham especialização tem crescido expressivamente.[8]  Esta evidência do crescimento da concorrência chinesa desafia o modelo de crescimento europeu, orientado para as exportações. No caso da economia portuguesa, a análise demonstra que o número de produtos com especialização partilhada aumentou de 36 em 2000 para 52 em 2024, enquanto no caso da economia alemã, esse número mais do que duplicou, aumentando de 21 para 53 (Gráfico 2). Entre as exportações portuguesas expostas, cerca de 75% pertence ao agrupamento de produtos manufaturados, prova do pendor industrial da economia chinesa. Simultaneamente, é visível que o crescimento da concorrência chinesa face à economia alemã se encontra concentrado no grupo máquinas e material de transporte, o que não era o caso no ano de 2000. 

 

Nas categorias de produtos para as quais a economia portuguesa tem maior nível de especialização destacam-se atualmente os relacionados com a cortiça, azeite, couro, vidro e papel. Desde 2000, o número de produtos para os quais a economia portuguesa tem vantagem comparativa cresceu de 75 para 102. Durante o período, os produtos com maiores ganhos de competitividade foram a cortiça, recetores de radiodifusão e contadores e instrumentos de medida. Ao invés, os produtos que sofreram maior deterioração na sua competitividade foram os artigos têxteis, calçado (dois exemplos afetados pelo primeiro choque da China) e equipamentos para distribuição de energia elétrica. Por grupos de produto, os maiores aumentos observaram-se nos ‘produtos alimentares e animais vivos’ e nos artigos manufaturados. Se considerarmos os produtos com índice de vantagem comparativa revelada superior a 3, o aumento foi de 8, concentrado nos produtos manufaturados (e.g.: pneus).

 

Gráfico 2 – O aumento da concorrência das exportações chinesas

Fonte: UNCTAD; cálculos CFP. Nota: Painel da esquerda: o gráfico mostra o número de categorias de produtos para as quais o índice de vantagem comparativa revelada é simultaneamente superior a 1 para o país e para a China. Se ambas as economias estão especializadas numa mesma categoria de produto, é provável que as exportações desse produto estejam a competir diretamente entre elas. Existem 259 categorias de produtos.

 

A esta mudança estrutural no comércio global acresce a política económica da administração norte-americana, com o aumento das barreiras alfandegárias e a normalização da incerteza. Uma análise recente do Banco de Portugal encontrou evidências da contração do volume exportado para os EUA, em termos relativos, assim como, num sentido mais amplo, da redução das quotas de mercado das exportações portuguesas no ano de 2025, após os ganhos observados na última década. A reorientação das exportações portuguesas para outros mercados trará desafios acrescidos dado o seu perfil de especialização e diferenciação. Uma possível resposta aos presentes desafios estratégicos passará pelas oportunidades criadas por um aprofundamento do mercado único europeu, em linha com as recomendações dos Relatórios de Letta e de Draghi. O potencial de crescimento é significativo, tendo em conta que, segundo o BCE, existem barreiras internas que aumentam os custos de troca de bens em 67% e os custos de troca de serviços em 95%, face aos custos domésticos, a que acrescem as barreiras no mercado de capitais, fulcral para financiar o investimento, e nos serviços digitais, fundamentais para a inovação e produtividade.

 

(Esta análise é parte integrante do Relatório 02-2026 do Conselho das Finanças Públicas “Perspetivas Económicas e Orçamentais 2026-2030”)

 


[1] Associado, também, aos efeitos prolongados da crise imobiliária que começou no final de 2021.

[2] Em parte, a deterioração das balanças comerciais face à China é motivada pelas dificuldades de a UE compensar o crescimento das importações com exportações de serviços de elevado valor acrescentado.

[3] Segundo o Instituto Económico Alemão (IW), a taxa de câmbio real do yuan face ao euro, com base no índice de preços do produtor, sofreu uma depreciação de aproximadamente 30% entre janeiro de 2020 e abril de 2025.

[4] de Soyres, F., Fisgin, E., Liu, M., & Van Leemput, E. (2026, março 2023). China's trade dominance and the role of industrial policies. FEDS Notes. Board of Governors of the Federal Reserve System.

[5] Le Roux, J., Spital, T. (2026).‘Global trade redirection: tracking the role of trade diversion from US tariffs in Chinese export developments’. ECB Economic Bulletin 1/2026.

[6] Motivado pela adesão da China à Organização Mundial do Comércio em 2001 e com base em mão-de-obra barata, no primeiro choque as empresas privadas chinesas, em colaboração com as multinacionais, transformaram a China na fábrica do mundo (por exemplo: têxteis, calçado e produtos eletrónicos).

[7] The Great Wall of Chinese goods: The effect of tariff-induced re-rerouting on euro area consumer prices | CEPR.

[8] Por classificação tipo para o comércio internacional.

 

Data da última atualização: 11/05/2026

Outras Publicações . Policy Brief nº 01/2026 . 11 maio 2026